Sem querer reportar-me ao óbvio, o amor mudou imenso a minha vida. Não só passei a partilhar a cama, como a pilha de roupa para lavar e passar aumentou exponencialmente. E já nem falo no calçado espalhado pela casa.
Mudou porque passei a ter a meu lado um ombro amigo, que me leva ao desespero com os seus disparates bem-dispostos, mas que me apoia, me ouve, me compreende.
Como raio é que vieste parar à minha vida? Não diria que caíste do céu, mas andaste lá perto.
Espera, já sei. Mudei de restaurante onde ia almoçar todos dias. E eu que só queria variar o que comia ao almoço. Variei a vida toda, lol.
E agora temos um piolhito que te adora e que acha que és o herói dele. Hoje saíste de manhã em direcção ao autocarro, e o nosso menino ficou a chamar por ti. Deu-me pena ver o seu rostinho franzido a chamar:
- Pai! Anda cá ao J'ão!
Sabes aquela forma que ele tem de contrair o nome dele? Hoje contraiu ainda mais, à medida que tu te afastavas e não olhavas sequer para trás e ele franzia mais e mais a testa.
Ficou triste. Fartou-se de perguntar por ti. E por mais que lhe dissesse “O papá foi ganhar tostão pa comprar papinha para a rabiguinha do João”, ele não sossegava. Olhava para a curva por onde tinhas desaparecido, à espera de te ver aparecer.
Quem apareceu foi o autocarro, atrasada como sempre, e tu ficaste para trás. O nosso menino já quer ir sentado no seu lugar, sem ser ao colo, quer carregar no botão para parar e quer ir a espreitar pela janela. E diz sempre: “O cão não vem, mãe”. Pobre cão, que ficou em casa a chorar porque ficou sozinho, porque sente saudades dos donos e porque acha injusto não poder vir com a dona, ele que até se porta bem e aninha-se a meus pés.
Depois saímos na paragem ao pé da creche. Foi o caminho todo a amuar, a dizer “nã quelo” cada vez que dizia que ia ver os seus amiguinhos. Mas foi. E mal chegámos à entrada da creche, deu dois pulos para o ginásio, encontrou um triciclo vazio e largou-me a mão, dizendo sem olhar para trás:
- Xau, mãe!
Não fosse alguém roubar-lhe o triciclo. Nem me passou mais cartão.
Antigamente, passava noites sem dormir a tentar decifrar o Livro Egípcio dos Mortos. Agora, passo noites sem dormir por causa do nosso menino, que está a evoluir de bebé para rapazinho. E não perdia isto por nada deste mundo.