terça-feira, 8 de novembro de 2011

S. Martinho na Creche



Correndo o risco de parecer o outro do anúncio, vou começar por dizer "Eu ainda sou do tempo..."

Ainda sou do tempo em que eram os garotos a trazerem trabalhos para fazer em casa. É certo que estamos a falar de uma criança com dois aninhos e meio, e isso ainda mais me baralha: não era suposto não termos trabalhos de casa nesta idade???

Pois hoje, quando fui buscar o meu pequenote à creche - após uma ausência de duas semanas por motivo de férias - a educadora entregou-me uma castanha em cartolina e disse-me, com um sorriso grande:

- Ò mãe, não se esqueça de me trazer isso amanhã enfeitado!

Fiquei verde. Peçam-me para discursar na Assembleia da República, peçam-me para lavar vidros do sétimo andar das Torres, peçam-me para enfrentar um chihuahua enraivecido, tudo menos fazer desenhos. Não tenho mesmo jeitinho nenhum para aquela arte. Olhei para ela com ar tão apavorado que o sorriso se alargou e tornou-se afiado:

- A mãe nunca andou na creche?

Por acaso, não. Sou do tempo em que as crianças eram educadas pelas avós enquanto as mães iam trabalhar (e a minha avó fartou-se de criar crianças que não eram netas de sangue, mas o eram de coração), sou do tempo em que os trabalhos de casa começavam a partir dos seis anos quando se entrava para a escola... e já mencionei que não tenho jeito nenhum para as artes plásticas?

O meu garoto agarrou na castanha de cartolina, com um sorriso grande na sua carinha. Quis ser ele a entregar ao pai o pedaço de cartolina.

Deus abençoe os homens com insight. O meu marido olhou para "aquilo" e disse:

- Tenho de ir à mata.

Por mata, entenda-se os onze hectares de parque selvagem que constituem um verdadeiro pulmão na minha cidade.

De verde, passei a cinzento. Agora é que eu estava a ver a minha vida toda andar para trás!

Por sorte, não demorámos muito. O meu marido apanhou o que entendeu que ia ficar bem e quando chegou a casa, ele, que costuma ajudar-me com o menino e com as coisas do dia-a-dia, pediu-me:

- Amor, hoje deixas-me aqui até acabar isto, está bem?

Por outras palavras, não me chateies. Tratei da janta enquanto ele tratava da castanha de cartolina. E talvez devido ao trauma que um simples pedaço de cartolina me estava a causar, fui fazer jantar a cheirar a São Martinho.

Quando terminei de servir os pratos ele mostrou-me a sua obra prima.

Digam lá que não ficou uma obra de arte! Tenhou ou não tenho um maridinho jeitoso?

sábado, 5 de novembro de 2011

Estrela Cadente



Ontem uma das estrelas mais brilhantes do meu firmamento vacilou. A Estrela que sempre me regeu foi de urgência para o hospital, com sintomas de AVC.

Hoje o susto parece ter passado. Mas foi o segundo no espaço de um mês. Sintomas diferentes, mas que apontam para a mesma sintomatologia - segundo o Google.

Eu sei que o corpo humano é uma máquina complexa. E que olhos diferentes podem ver de maneiras diferentes. Mas quão difícil será tratar um doente que entra nas urgências do hospital de ambulância, que é diabético e que tem a tensão a 23?!

O que é que provoca esta abrupta subida? Será que sabem? Será que se importam sequer? Que uma mente brilhante, que resolve Sudoku a caneta azul porque nunca se engana, tenha entrado numa fase de jarganofasia? Acharão normal?

Importar-se-ão sequer?

És a minha Estrela, o meu guia. Não me podes deixar.

Não assim. Depois de uma luta inteira, de uma vida de dificuldades, de tanta sapiência acumulada, tens o direito de dormir pacificamente.

Não é justo.

Vais ao médico na segunda-feira e és o maior hipocondríaco que conheço. Por favor, trata-te. Tens de andar por cá muitos anos ainda, tens mais um para guiar, tens de ser a estrela para o teu homónimo.

Por favor.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Gomas e um Dia de Chuva



Poucos prazeres há na vida como as pequenas coisas.

Dia de chuva em casa com uma criança pequena equivale a casa caótica, brinquedos por todo o lado, lápis de cor espalhados por todo o lado e um ocasional beijo peganhento.

Não trocava isto por nada deste mundo. Se tropeçar num lápis, logo me levanto, se pisar um carrinho é tentar compôr antes que o puto se aperceba, se a carita estiver peganhenta é tentar não pensar no que pode ter provocado aquela gosma e limpá-la o mais rapidamente possível.

Um dia de chuva é bom para aninhar na cama com o pequenito a ver episódios repetidos do "Bocas" que a ele tanto encantam, deixá-lo comer gomas à laia de pipocas e brincar com o cachopo. Porque o tempo está a passar a correr e qualquer dia ele já não se quer aninhar com a mamã, já nem sequer me chama mamã, já não quer comer gomas.

Por hoje, por agora, por enquanto, sou a mamã e estamos aninhados na cama a ver o "Bocas" e a comer gomas.

Há melhor que isto na vida?

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

P'ra Esquecer!!



Já alguma vez tiveram algum dia que parecia que nada corria bem??

Yep... É como diz a música, Why Does it Always Rain on Me???

E hoje nem choveu.

Então é assim: no banho acaba-se o shampôo. Porreiro. E o frasco novo? Na dispensa, claro. Do outro lado da casa. Começa bem.

Uma quiche que já fiz milhentas vezes. Claro que tinha de agarrar hoje à forma. Claro que sim.

E é claro que hoje que não abri a porta ao carteiro tinha de lá estar uma carta registada. Hã-hã.

Ir dar um passeio hoje? Boa ideia, vou calçar aqueles sapatos que... Ideias da treta, pois claro! E é claro que me iam apertar os calos. E para o caso de não os ter, formou um.

Agora tenho o monitor do pc a pifar. Não espirrem não vá partir qualquer coisa!

Até tou com medo de me deitar. Ainda me cai algum bocado de tecto em cima.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Egoísmo



Uma coisa eu acho que já ficou claro na minha maneira de ser e estar: sou frontal. Sou directa. Não tenho paciência nem feitio para falsidades. E não tolero egoísmos.

Não sou descartável. E não admito que me tentem atirar areia para os olhos. Estou-me nas tintas se gostam ou não da minha maneira de ser, ou compram a embalagem toda ou mais vale nem tentar abrir o pacote. Não tentem é fazer de mim parva.

Quando me dizem que uma mãe não via um filho durante três meses ou mais, esquecem-se que também são mães - e galinhas por acaso - e que no caso delas também não iam gostar.

Mas preferem virar a cara para o lado porque lhes é mais conveniente assim.

A conveniência de hoje não é a mesma de ontem e não será igual à de amanhã. Mas uma vez mãe, sempre mãe. Um dia mais tarde lembrar-se-ão disto. E queira Deus que as palavras hoje pronunciadas não lhes venham um dia a amargar na boca.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Cansaço


Estou tão terrivelmente cansada...

Farta da hipocrisia das pessoas, farta de lutar contra a maré, farta de tentar reunir energias quando eu própria já não me sinto com coragem...

Farta de ser super-mulher, porque o meu dia começa cedo e acaba tarde e mesmo assim não ouço senão vozes discordantes nos ouvidos...

Faço o que me manda a consciência, mas isso não é suficiente.

Faço o que está ao meu alcance, mas não é suficiente.

Cansada.

sábado, 1 de outubro de 2011

Uma Última Partida de Dominó



Em miúda, jogava muito ao dominó. Ou o meu avô ou a minha avó sentavam-se comigo e estavam horas a jogar. Faziam fintas, negaças e muitas vezes deixavam uma miúda abelhuda ganhar apenas para ver o seu sorriso desdentado de quem já está a perder a dentição de leite.

O meu avô faleceu há muito. E quando o coração desistiu de bater, ele já não reconhecia a miúda desdentada na adolescente de sorriso triste. Ele já não reconhecia a neta. Ele já não reconhecia ninguém.

Ficou a minha avó.

Excelente bordadeira, não havia segredo do croché que não conhecesse. Fazia um naperon mais rapidamente do que eu conseguia desenrolar os olhos. Parecia que mal pestanejava já o naperon estava feito.

Comprei meadas e meadas de linhas para ela fazer os seus naperons. Tenho tantos feitos por ela que não tenho mesas que cheguem.

Tinha uma astúcia serena a jogar, uma calma e um sorriso meigo. Era a avózinha que todos queriam. Cúmplice e bem disposta.

Mas a demência também a apanhou. Já não há astúcia serena a jogar dominó. Tenta contar as pedras e engana-se frequentemente porque embora saiba as regras, já não as consegue aplicar. Perdeu muitas coisas e a agulha do croché foi a primeira. Já não há naperons. Às vezes já não há reconhecimento.

Fala do bisneto como se tivesse estado na pele da neta. O que eu fiz, na cabeça dela, fez ele. O que eu disse, na cabeça dela, fez ele.

E alturas há em que na cabeça dela, ele já não existe e eu sou bebé de berço.

Hoje jogámos dominó. E ainda que ela ainda não o saiba, foi a última porque amanhã a vida dela vai mudar. Já não pode estar sozinha, uma vez que já não consegue tratar da higiene básica.

Já não há astúcia serena. Já não há astúcia. Já não há croché. Já não há reconhecimento.

Tantos já não hás...!

Ficou a desorientação, o olhar por vezes vazio, o sorriso triste.

Ficou o piloto automático, mas a minha avó já cá não está. Fisicamente, está alguém que usa o corpo dela e fala com a voz dela, mas já não é a avó que eu tinha.

Gostava, por uma hora que fosse, reviver aquela criança desdentada e de sorriso franco e a avó com a astúcia serena e o avô brincalhão.

O presente é uma dor constante. Cada jogada daquela última partida de dominó uma facada no coração.

Eu quero a minha avó.