sábado, 11 de junho de 2011

Era uma Vez



Sou uma portuguesa típica. Saudade devia ser o meu nome do meio.

Hoje passei no youtube para entreter o meu pequerrucho com algumas musiquinhas. "A loja do Mestre André", "O Balão do João", etc...

Dali a passar para a "Ana dos Cabelos Ruivos", "Era uma Vez a Vida", "L'Aventures de Les Cités D'Or", "O Panda Tao Tao", "D'Artagnan", etc, foi um pulinho.

Isto é que eram desenhos animados. Ensinava. Ainda hoje são actuais. Não eram violentos, ou traziam a violência disfarçada, e todos os miúdos compreendiam.

Era a única maneira da minha avó ter sossego lá em casa, era das cinco às seis da tarde, em que reunia a criançada toda na sala para vermos televisão. A hora do "Brinca Brincando" era sagrada - até para ela, que se sentava connosco a ver. A hora do almoço e do "Não se Brinca com a Comida" ia longe, e havia expectativa no ar. Sabíamos o que íamos ver, e estávamos desertinhos de ver os novos episódios. Pela primeira vez no dia não havia castigos, nem bulhas, nem puxões de cabelos nem esses mimos com que as crianças se mimoseiam umas às outras - o banco dos castigos tinha o meu nome escrito lol, às vezes ainda não tinha acabado de me levantar e já lá estava outra vez.

Ainda hoje associo os glóbulos brancos do corpo aos polícias do desenho animado.

Aprendíamos enquanto víamos bonecos animados. E hoje? Murros, pontapés, sangue, violência... até tremo pelo meu filho.

Por isso, continuo a pôr estes desenhos para ele ver no computador o que a mãe via na televisão quando tinha a idade dele.

Era bastante mais saudável e educativo.

We Are the World


Esta é outra música que me toca no fundo da alma.

Mas, como tudo, deixa-me cá com umas quantas questões.

Os problemas em África foram grandemente causados pelos outros. Europeus, Americanos, Russos... Quem está isento de culpas? E isso interessa, ao fim deste tempo todo? Portanto, termos "USA for Africa" é um engano... ou um descargo de consciência.

Esta letra é linda. Quem a escreveu foi Michael Jackson. Descobri-o recentemente. Era suposto o Prince ter ido ter com ele para escreverem a letra juntos, mas nunca apareceu e Michael não quis faltar ao que tinha prometido e esteve até às quatro da manhã a terminar a letra, para estar às oito no estúdio.

De Michael Jackson sabe-se muita coisa, tudo quanto vinha escrito nos jornais era história. Mas a verdade é que se o homem tivesse tempo para fazer tudo aquilo de que o acusam, o dia para ele tinha 48 horas.

A música é linda. Fantástica, direi mesmo.

E embora sejamos realmente o mundo, cada vez menos se vê dar e cada vez mais se vê cobrar.

O mundo da música nunca mais foi o mesmo sem ti, Michael.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Treino do Bacio


Poucas coisas me assustam tanto como a empresa hercúlea que me espera com o meu filhote: o terrível, temido e nada ansiado treino do bacio.

Não sei se já mencionei aqui que o meu piolhito é extremamente teimoso, o que não ajuda em nada ao treino do bacio.

Hoje deixei-o andar sem fraldas um bocado e mostrei-lhe o bacio, sentei-o lá, estivemos à conversa com ele, eu e o pai, e ele andou a brincar enquanto lá estava sentado.

Nisto levantou-se e foi fazer xixi à carpete.

Portanto, neste momento estamos: bacio 0 - carpete 1.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Song For Nadim



Ainda hoje esta música me traz lágrimas aos olhos. Ainda me lembro de ver o menino, na TV, a andar numa cidade semi destruída pela guerra, e a sua voz em fundo a pedir para o pai vir para casa.

A tristeza cobre-me o coração e a alma por saber que há tantas crianças por esse mundo fora a quem a guerra tirou os pais. É verdade que pai nenhum devia ter de enterrar os seus filhos, mas também não é menos verdade que não devia ser uma criança a fazê-lo.

Gostava de saber o que foi feito do pequeno Nadim que de maneira tão ternurenta pede ao pai para vir para casa.

O meu filho adora estar com o pai, brincar com o pai, desafiar o pai. O pai é o seu herói. Não me imagino a criar o meu filho sozinha, sem esta importante figura a meu lado.

Amo o meu marido e o meu filho, mas sei que o amor que eles têm entre os dois ultrapassa tudo.

Cinquenta vezes ouço a voz pequenina do meu bebé perguntar: “O piupiu?” E cinquenta vezes ouço o meu marido responder: “Está ali, olha ali o piupiu”. Primeiro divertido, depois exasperado, e por fim resignado. E tantas vezes quantas ele perguntar, tantas ele responde.

Obrigado, meu amor, por fazeres parte da minha vida, por me teres dado um filho tão lindo e por seres quem és.

Amo-te e amo o nosso cachopo mimado.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Tou cá com umas ganas...



Tenho feito esta pergunta a mim mesma muitas vezes. O que faria Sojourner Truth no meu lugar?

Para os mais distraídos, Sojourner Truth foi uma mulher que se bateu pelos direitos à liberdade dos escravos. Uma mulher como há poucas, quer na altura, quer hoje. Aliás, ao ler a biografia dela, apercebo-me que é uma mulher como há poucos homens, e então que eu conheça... enfim é melhor não seguirmos por aqui.

Graças à lei do Trabalho, que pelos vistos tem mais buracos que uma peneira, uma entidade patronal pode ficar com metade do subsídio de férias do trabalhador apenas porque sim, e dá-lo apenas no final do mês de Dezembro.

Eu sei que não sou particularmente uma pessoa iluminada em muitos aspectos, mas pelo menos isto eu sei: se a pessoa vai de férias em Julho, não deveria receber o subsídio em Julho? Tem de ficar à espera de Dezembro (final do mês de Dezembro, note-se, quando o Natal também já passou e se traduz numa azia pós-festa)? Sublinhe-se o facto de estarmos à espera do subsídio de férias, não de natal, nem de quando Deus quiser.

É isto que me querem fazer este ano. E como de cada vez que me sinto a ser lixada, contorço-me e procuro formas de provar que não só isto é etica e moralmente reprovável, como é fodido. Não sou a única a estar à espera do subsídio de férias para comprar coisas para mim que de outra forma não consigo. Não estou à espera do subsídio para alugar uma casa algures num condomínio fechado com vista para o mar. Preciso do subsídio para ir graduar a vista e comprar umas coisas para a casa. E preciso agora, não é em Dezembro. A continuar conforme estou, em Dezembro já estou pitosga de todo.

Mas o que me lixa mais nesta abençoada ideia não é o facto de me estarem a querer lixar metade do que é meu por direito; é não terem tomates para mo fazerem cara a cara. É fazerem pelas costas e dizerem, “é uma decisão da maioria”. Maioria de quê, especificamente? Quem é que decidiu quando é que eu devo receber o que é meu por direito? E já agora, quem foi o corajoso cobarde que não foi homem o suficiente para assumir as consequências dos seus actos, para enfrentar a classe de trabalhadores que lixou, remetendo-se para um sms através de uma das suas assistentes?

SMS! Fiquei a saber que ia ser lixada por SMS! E viva o séc. XXI! Tiram-me um direito adquirido e nem têm a decência de dar a cara.


E o ridículo é que só fomos avisados porque perguntámos primeiro: “Afinal como é que é?” Porque senão chegávamos à altura e ficávamos a olhar para as mãos.

Estão a ver a fúria que fervilha em lume brando, mas a dada altura atinge o ponto de ebulição? Já esteve mais longe para me saltar a tampa. Muito mais longe.

Psicologia Inversa



A seguir à Psicologia Aplicada, a Psicologia Inversa foi outra coisa que me deu água pela barba.

Como fazer desenhos com a comida é algo que me faz confusão ("Não se brinca com a comida!"), tentei a Psicologia Inversa.

Por diversas vezes reparei que com o meu filho era a única coisa que parecia resultar. Eu digo-lhe “não faças!”, ele faz. Digo-lhe “faz!”, ele olha para mim com ar malandro e diz: “Não!”

É do contra, portanto (pergunto-me a quem sairá ele...).

Como é complicado dar-lhe carne que não esteja picada, tentei ir pelo inverso. Servi-lhe um prato com bife cortado aos bocadinhos liliputianos, arroz e batatas, tudo escrupulosamente separado (só me faltou ir buscar a fita métrica para medir os espaços entre os alimentos, mas depois achei que era levar a obsessão muito longe). Quando ele atacou o acompanhamento e afastou o bife para o lado, ainda tentei a via do normal:

- Filhote, papa a xixinha, é tão boa...

- Não! –respondeu logo ele, o sorriso malandro a aparecer. Safadinho!

Olhei para o meu marido, mas ele fingiu que não via. Voltei para o miúdo e continuei:

- Também acho, filho! Não comas, não presta! Xixa má.

Ele olhou para mim e as covinhas que aparecem sempre que ele sorri fizeram uma aparição bastante acentuada no seu rostinho infantil:

- Xixa má! Nã quelo!

E agarra na “xixa má” e dá descaradamente ao cão, que escancarou aquela cloaca para garantir que não caía nada no chão!

- Não dá ao cão, filho! –repreendo. Ele olha para mim e repete:

- Xixa má! Nã quelo!

Tento emendar a minha gaffe monumental:

- Filho, aquela xixa era má, mas esta é boa, olha, vês? A mamã e o papá papam a xixa!

- Xixa não!

E não comeu a carne! Para já não dizer que no fim daquilo tudo também já não me apetecia o bife.

Quando à Psicologia Invertida, estamos conversados.

Não se Brinca Com a Comida



Parece que foi ontem que a minha avó me dizia: “Não se brinca com a comida!” Parece que a estou a ver, de mão na cintura, ar severo, postura zangada. E tudo porque eu estava a passear o peixe cozido de um lado para o outro no prato, sem vontade nenhuma de o levar à boca.

Hoje, quando dou conta, pareço a minha avó. Digo ao meu filho, com ar severo e dedo espetado no ar: “Não se brinca com a comida!” O estranho é que agora não é ao peixe cozido que não quero que se brinque. Eu detestava peixe cozido, o meu filho gosta imenso (sobretudo com molho de manteiga, alho e limão) – são daquelas coisas que eu não entendo! Do que ele não gosta, ou pelo menos aprecia menos, é da carne (não fosse cá por coisas diria que o rapaz tinha sido trocado na maternidade à nascença lol). Afasta a “xixa” para o lado com a ponta do garfo e atira-se ao acompanhamento (seja arroz, batata, massa, feijão, come tudo. A carne é que fica para mim).

Comentei esse facto com a pediatra, que me disse: “Faça brincadeiras com a comida!” Ò xô doutora, então e quem é que tira a imagem da minha avó da minha cabeça?? (“Não se brinca com a comida!”) Como é que eu posso fazer uma coisa dessas, enfeitar artisticamente o prato (“Não se brinca com a comida!”), fazer desenhos com a carne (“Não se brinca com a comida!”), quando tenho tão vívida a imagem da minha avó, de mão na anca e dedo espetado no ar?? (“Não se brinca com a comida!”)

Mas, abençoada seja a percepcão da senhora, ela percebeu. De alguma forma percebeu que eu tinha o “Não se brinca com a comida!” bem vívido na minha mente. Sorriu e disse:

- É rigorosamente o oposto do que lhe disseram quando era pequena, não é?

Tive de me rir. Ela tinha razão.

Mas parece que agora está na moda ensinar as crianças a comer verduras desenhando girassóis com os legumes e fingindo que o ovo estrelado é um sol.

A ver se nos entendemos: nunca conheci criança nenhuma que tivesse problemas em comer ovo estrelado, e além disso beterraba em forma de girassol continua a não ter paladar agradável. O problema, minha senhora, está no sabor, não na forma. Se a beterraba soubesse a snickers era ver os miúdos a fazerem fila. E os pais também.

Além de que o método da minha avó podia ser politicamente incorrecto, mas resultava (mão na anca, dedo espetado no ar e colher de pau pousada ao lado da criancinha embirrenta que não queria comer) e o facto é que todas as crianças que lhe passaram pelas mãos – e foram muitos pois ela foi ama durante muitos anos – gostam de vegetais. Podem não achar grande piada ao arroz de grelos, mas comem as saladas e os legumes cozidos – o peixe já é discutível, mas a mulher não era nenhuma milagreira. E hoje são eles próprios pais e ainda perguntam à minha avó: “Tem aí aquela colher de pau...?” O mais engraçado é que nunca vi aquela colher de pau em acção com ninguém. Saía da gaveta e voltava para lá sem nunca ter tido outro uso que não fosse o assustar.

Já este método moderno traduz-se em desenhos no prato e nas paredes, porque as crianças acham piada ao girassol e ao sol e levam lá os dedos. Quando dizem “ooops” é certo e sabido que tentaram limpar os dedos na parede ou no forro da cadeira. O método da minha avó podia ser pouco ortodoxo, mas resultava.

Perdoem-me os pedopsiquiatras, os pediatras e todos os outros cuja profissão termina em “atra” ou semelhante: mas ainda sou apologista daquilo a que chamo o método da avozinha. Tem resultados comprovadamente eficazes. Aliás, estou a pensar sugerir à minha avó que emoldure a colher de pau e ma empreste. Tenho lá em casa um miúdo que adora peixe cozido mas detesta “xixa”.